10 de abril de 2026
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Dicas
Design modular e multifuncional: tendência passageira ou nova linguagem dos interiores?
O design modular ganhou força com a escassez de espaço urbano. Mas o que está por trás dessa tendência e como ela redefine o mobiliário contemporâneo?
Morar bem em menos espaço deixou de ser uma questão de adaptação e passou a ser uma decisão de projeto. Com apartamentos cada vez menores nas grandes cidades brasileiras, arquitetos e designers se veem diante de um desafio concreto: como garantir funcionalidade, identidade e permanência estética em plantas que encolheram de forma expressiva na última década?
O design modular surge como resposta a essa equação. Mas, antes de tratá-lo como tendência do momento, vale entender de onde ele vem e o que está por trás da sua consolidação. Neste artigo, exploramos a origem do pensamento modular no mobiliário, o peso dos dados urbanos nessa discussão e o que diferencia uma solução bem concebida de um móvel que simplesmente tenta fazer tudo ao mesmo tempo.
O que é design modular e quando esse pensamento surgiu?
A ideia de criar mobiliário a partir de unidades que se combinam, se empilham ou se reconfiguram não nasceu com o mercado imobiliário compacto dos anos 2000. Ela tem raízes no modernismo europeu do início do século XX.
A Bauhaus, fundada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius na Alemanha, foi uma das primeiras instituições a pensar o mobiliário como sistema, e não como peça isolada. A escola propôs componentes padronizados como forma de atender à necessidade habitacional do pós-guerra, com eficiência e custo acessível. O princípio central era direto: a forma deve seguir a função. Naquele contexto, projetar móveis que pudessem ser produzidos em larga escala e adaptados a diferentes plantas era uma necessidade social, não apenas uma escolha estética.
Esse raciocínio evoluiu ao longo do século XX em várias direções. Na Itália dos anos 1960 e 1970, empresas como Cassina e B&B Italia começaram a desenvolver sistemas de estofados modulares que combinavam liberdade de configuração com acabamento de alta qualidade, associando pela primeira vez modularidade e design autoral de forma consistente. Nos países escandinavos, o pensamento sistêmico no mobiliário ganhou escala industrial sem abrir mão da atenção ao detalhe construtivo. O resultado foi uma geração de produtos que sobreviveu décadas sem perder relevância.
O design modular, portanto, não é uma invenção recente. O que mudou foi o contexto que o tornou urgente, e a velocidade com que essa urgência chegou ao cotidiano dos projetos residenciais e comerciais brasileiros.
Menos metros, mesmas necessidades
Os números do mercado imobiliário brasileiro explicam grande parte do movimento em torno do design modular nas últimas décadas.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, a referência oficial mais recente disponível, 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. Essa concentração pressiona o mercado a produzir mais unidades em terrenos cada vez mais escassos e caros, com resultado direto nas plantas residenciais. Os dados confirmam essa compressão:
- Um levantamento do Banco Central cruzado com dados da Caixa Econômica Federal, publicado pelo Valor Econômico, aponta encolhimento de 12,75% na metragem média dos imóveis financiados no Brasil desde 2018.
- Em 2024, mais de 80% dos empreendimentos lançados em São Paulo tinham menos de 42 metros quadrados, segundo análise do Jornal da USP com base em dados do mercado imobiliário paulistano.
- O Anuário do Secovi-SP confirma essa tendência: imóveis entre 30m² e 45m² lideram os lançamentos na capital, com maiores índices de velocidade de vendas entre todas as faixas de metragem.
Esse processo não acontece apenas em São Paulo. Cidades como Belo Horizonte, Recife e Curitiba registram movimentos semelhantes, com apartamentos compactos ganhando participação crescente nos lançamentos e na preferência de compradores e investidores. A lógica é parecida em todas elas: terrenos mais caros em áreas bem localizadas resultam em plantas menores, que precisam cumprir mais funções sem crescer em metragem.
O que esse cenário coloca para o design é uma pergunta direta: como um espaço de 30m² pode funcionar como escritório, sala de estar, quarto e área de lazer sem que nenhuma dessas funções seja comprometida? A resposta passa, inevitavelmente, pelo mobiliário. Em plantas dessa dimensão, cada peça tem peso decisivo. Uma escolha equivocada ocupa espaço visual e físico que não há como recuperar. Uma escolha bem feita pode ampliar a percepção do ambiente, organizar os fluxos e criar zonas funcionais que convivem sem conflito.
Multifuncional não é sinônimo de bem projetado
Aqui mora uma distinção importante, e que costuma ser ignorada no debate sobre design modular.
Existe uma diferença significativa entre um móvel que acumula funções e um móvel concebido para funcionar bem em múltiplos contextos. O primeiro resolve uma necessidade imediata, mas raramente sustenta o uso ao longo do tempo, seja pelo desgaste estrutural, pela limitação de ajuste ou pela ausência de identidade visual. O segundo foi pensado desde o início como sistema: cada módulo tem sentido próprio e, quando combinado com outros, mantém coerência sem criar ruído visual.
Essa distinção aparece com clareza na prática de projeto. Uma estante modular de baixa qualidade construtiva pode parecer funcional nos primeiros meses, mas tende a perder estabilidade, apresentar folgas entre os módulos e se desvalorizar visualmente à medida que o ambiente evolui. Uma estante modular bem construída, com estrutura sólida, acabamento preciso e proporções estudadas, pode atravessar décadas, ser reconfigurada em diferentes ambientes e manter presença estética em qualquer composição.
Um bom projeto modular considera, ao mesmo tempo:
- Proporção e escala: como a peça se relaciona com o espaço ao redor, independentemente da configuração escolhida;
- Materialidade: quais acabamentos suportam o uso cotidiano sem perder qualidade estética com o tempo;
- Coerência sistêmica: se os módulos, quando combinados de formas diferentes, mantêm unidade visual entre si e com o ambiente;
- Reversibilidade: se o sistema permite ajustes e expansões sem comprometer a integridade do conjunto;
- Permanência: se a peça continua relevante à medida que o morador muda de espaço ou de fase de vida.
Esse último ponto é talvez o mais negligenciado. Um móvel modular bem projetado deve ser capaz de migrar entre ambientes diferentes sem perder sentido. Um aparador que funcionou em uma sala de 15m² precisa funcionar igualmente bem em uma sala de 40m², talvez em outra configuração, mas com a mesma presença e integridade. É o que separa um sistema pensado como design de um produto pensado como solução de curto prazo.
O papel do arquiteto nesse cenário
O crescimento do design modular coloca o arquiteto e o designer de interiores em uma posição central. São eles que definem se a flexibilidade de um ambiente vai se traduzir em coerência espacial ou em acúmulo de soluções desconexas.
Trabalhar com mobiliário modular exige uma camada adicional de raciocínio projetual. Não basta escolher peças que caibam na planta. É preciso pensar em como elas se comportam juntas, como respondem à luz, como organizam o fluxo de circulação e como vão envelhecer com o uso. Em um apartamento compacto, essa atenção é ainda mais crítica, porque o espaço não perdoa escolhas feitas apenas por conveniência.
Algumas das decisões mais determinantes nesse processo:
- Priorizar sistemas em vez de peças isoladas: pensar no mobiliário como conjunto com lógica interna, e não como composição de produtos avulsos que simplesmente coexistem no mesmo ambiente;
- Definir hierarquia entre as peças: em espaços menores, uma ou duas peças precisam assumir protagonismo. As demais devem trabalhar em segundo plano, sem disputar atenção;
- Considerar o tempo de uso: como o ambiente vai se comportar daqui a cinco ou dez anos, quando o morador mudar de rotina, de família ou de espaço;
- Não confundir versatilidade com excesso: um móvel que tenta resolver tudo pode acabar não resolvendo nada com qualidade. A curadoria segue sendo um critério de projeto tão relevante quanto a planta.
O design modular, quando bem integrado a um projeto, não é um recurso emergencial para compensar metragem. É uma escolha que exige o mesmo nível de critério, repertório e intenção de qualquer outra decisão de mobiliário. O que muda é a camada de complexidade envolvida: projetar para a flexibilidade é, em muitos casos, mais exigente do que projetar para o fixo.
Design autoral e modularidade: como a Tasselo pensa essa relação?
Na Tasselo, a lógica da adaptabilidade não começa pela metragem do apartamento. Começa pela qualidade construtiva e pela identidade de cada peça.
Soluções que se reconfiguram precisam ser construídas com a mesma precisão de qualquer móvel de alto padrão. Marcenaria bem executada, acabamentos consistentes e proporções estudadas são o que garantem que um sistema modular mantenha sua integridade visual ao longo do tempo, independentemente de como for composto. Um módulo mal calibrado, com folgas ou acabamento irregular, compromete o conjunto inteiro, porque a modularidade amplifica tanto os acertos quanto os erros de fabricação.
O portfólio da Tasselo é pensado para projetos que demandam permanência estética. Seja em um apartamento compacto ou em um grande ambiente comercial, o critério é o mesmo: cada peça deve participar do espaço com identidade, não apenas ocupá-lo. A flexibilidade, quando existe, é uma consequência do bom projeto, não o ponto de partida.
Conheça o portfólio da Tasselo e descubra como o design autoral pode fortalecer projetos com identidade, propósito e permanência.
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