22 de maio de 2026
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Dicas
Do minimalismo ao design de memória: a volta dos espaços que acolhem
Como o design de interiores está deixando o vazio impessoal para trás e voltando a valorizar memória, identidade e conforto real.
Durante anos, o minimalismo funcionou como linguagem dominante nos projetos de interiores. Paredes brancas, linhas limpas, ausência de ornamento, uma ideia de sofisticação que se tornou, com o tempo, quase um protocolo. A repetição desse modelo foi produzindo ambientes que se pareciam demais entre si, independentemente de quem morava neles ou de que cidade estavam. A sofisticação virou fórmula e essa mesma fórmula começou a se repetir, de forma incessante, em briefings e projetos.
Mas, agora, o cliente que antes chegava com referências de interiores escandinavos ou apartamentos nova-iorquinos pede algo diferente. Quer menos frieza, questiona a simetria perfeita, abandona o branco como resposta automática. Pede, muitas vezes sem saber nomear exatamente o que quer, um espaço que pareça dele, que carregue algo reconhecível, que tenha história, que acolha de verdade.
Esse deslocamento não é pontual. É uma resposta acumulada a uma década de interiores que priorizaram a imagem em detrimento da experiência. O profissional que está atento já percebeu essa mudança chegando, e está sendo chamado a responder a ela com repertório e critério.
O que o cliente quer dizer quando pede "aconchego"
"Aconchego" se tornou um dos termos mais frequentes nos briefings contemporâneos, e também um dos mais difíceis de traduzir em decisões de projeto. A palavra aparece com variações, o cliente diz "quero algo mais humano", "menos frio", "com mais personalidade", mas o núcleo da demanda é o mesmo: um espaço que carregue algo reconhecível, seja uma referência afetiva, um objeto com história, uma textura que remeta a algo vivido.
Esse fenômeno tem nome dentro do campo do design. Donald Norman, ao descrever os três níveis de resposta ao design, visceral, comportamental e reflexivo, identifica no nível reflexivo o campo do significado, da memória e da identidade. É o que hoje se chama de design de memória. A capacidade de um objeto ou espaço de acionar recordações, criar vínculos afetivos e construir pertencimento. É exatamente essa camada que os interiores excessivamente minimalistas ignoraram durante anos, em nome de uma coerência visual que, no fundo, não pertencia a ninguém.
O profissional atua como mediador entre o repertório pessoal do cliente e a linguagem do projeto. Escuta qualificada é o ponto de partida, mas o trabalho real exige conhecimento próprio acumulado:
- Reconhecer o que uma peça carrega conceitualmente, que tradição ela mobiliza e como isso dialoga com a leitura que o cliente faz do próprio espaço;
- Perceber como proporções e escala afetam o corpo no ambiente, muito antes de qualquer discussão sobre acabamento ou cor;
- Ler o material como linguagem: o que ele comunica, como ele envelhece, que tipo de experiência ele cria no dia a dia.
São escolhas que definem a profundidade de um projeto muito antes de qualquer definição estética.
Materialidade como argumento de projeto
A mudança mais concreta nesse movimento está na seleção e no uso dos materiais. Depois de anos de superfícies lisas, acabamentos neutros e paletas monocromáticas, a materialidade voltou a ter peso dentro do projeto, reorganizando decisões que vão da especificação de revestimentos à escolha do mobiliário.
Madeira com veio aparente, pedras brutas, linho, couro com história no toque. Esses materiais comunicam algo além da função: carregam temperatura, presença, e respondem à luz de formas que nenhum material industrial consegue replicar com a mesma riqueza.
As paletas seguem essa lógica. Tons ocre, terracota, verde musgo e areia criam uma qualidade emocional diferente, ambientes que parecem habitados, não preparados para sessão de fotos. A composição dos espaços também mudou de caráter:
- Camadas e sobreposições passaram a ser usadas como recursos conscientes, um tapete que ancora, uma luminária que esculpe a luz, peças que dialogam sem precisar de uniformidade;
- Contraste entre superfícies ásperas e polidas, opacas e brilhantes, produz uma riqueza sensorial que os ambientes monocromáticos simplesmente não alcançam.
É essa densidade intencional que separa um projeto tecnicamente correto de um ambiente que as pessoas reconhecem como seu.
Design brasileiro como repertório, não como referência decorativa
Durante muito tempo, o design produzido no Brasil funcionou nos projetos de interiores como citação cultural, um aceno à identidade local dentro de projetos que tinham como eixo principal referências vindas de fora. Essa posição mudou, e a mudança tem consequências práticas para quem projeta.
Parte disso se explica por algo que vai além da estética: o design brasileiro responde a condições reais do habitar daqui. A luz intensa e direta pede materiais que absorvam e difundam, não que reflitam. Os modos de viver, com ambientes que transitam entre dentro e fora, entre o social e o íntimo, pedem peças que funcionem em contextos variados sem perder identidade. O calor, a informalidade das relações, a centralidade das refeições e das reuniões, tudo isso produz um modo de ocupar o espaço que o design nórdico ou italiano simplesmente não foi pensado para responder.
Existe aqui uma tradição consistente que combina rigor formal, domínio do artesanato e essa relação particular com os materiais e com a vida. Influências que partem de nomes como Lina Bo Bardi, Joaquim Tenreiro e Sérgio Rodrigues seguem sendo reinterpretadas com inteligência por designers e marcas da geração atual, sem nostalgia e sem pastiche.
Para o profissional de arquitetura e interiores, isso representa uma ampliação real de repertório:
- Peças que carregam referência cultural sem precisar de explicação, com história embutida na forma e no processo;
- Uma materialidade que conversa com o clima e a luz daqui, sem forçar soluções pensadas para outros contextos;
- Uma linguagem que dialoga com o presente sem ignorar a profundidade histórica que a sustenta.
Trabalhar com design brasileiro contemporâneo não é um mero posicionamento de mercado, mas sim uma escolha projetual com consequência estética e cultural.
Bossa: forma, sensação e identidade brasileira em cada peça
Na Tasselo, a Coleção Bossa parte de uma premissa clara: mobiliário que responde ao corpo e ao espaço com a mesma atenção. As formas são orgânicas e fluidas, mas têm intenção. Há um cálculo de proporção que garante presença sem peso excessivo, e conforto que não compromete o caráter da peça. Para o profissional, esse nível de intenção funciona como ancoragem conceitual do projeto, trazendo já embutido o que o ambiente precisa comunicar.
Algumas peças da coleção ilustram bem esse argumento:
- Cadeira Sicília: estrutura em madeira maciça com assento e encosto estofados, a Sicília trabalha o contraste entre formas e materiais como recurso projetual consciente. Tem personalidade suficiente para funcionar como ponto focal, mas versatilidade para dialogar com diferentes linguagens de projeto
- Sofá Pétala: estrutura leve com curvas que remetem ao movimento natural de uma pétala, pensada para lounges e salas de estar que combinam presença estética e conforto de uso em equilíbrio
- Poltrona São Bernardo: traços orgânicos e geométricos com fortes inclinações modernistas que se atualizam pela variedade de revestimentos e cores disponíveis. Uma peça que carrega referência histórica sem parecer datada, exatamente o tipo de escolha que envelhece bem dentro de um projeto
O que conecta essas peças é a coerência entre referência, forma e experiência de uso. Elas não precisam explicar de onde vêm. A linguagem já está dada na própria construção de cada uma.
Design que permanece e posiciona quem projeta
O cliente que pede um espaço com identidade está, no fundo, pedindo um projeto que resista ao tempo. Ou seja, que não esteja apenas na moda ou em uma próxima referência viral, mas que exalte sua permanência no uso cotidiano e real do ambiente. Esse é um critério que profissionais de arquitetura e interiores conhecem bem, e que muitas vezes fica em segundo plano diante da pressão por resultados visualmente impactantes no curto prazo.
A volta da materialidade, da memória e da identidade nos espaços é um reconhecimento de que o espaço bem projetado precisa funcionar como lugar, não como imagem de lugar. Quem incorpora esse olhar nas decisões de projeto constrói algo além do estético: uma coerência que o cliente reconhece, capaz de fortalecer a relação de confiança e definir o posicionamento do profissional ao longo do tempo.
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